Há histórias mineiras que permanecem dentro das fronteiras do estado. Outras começam aqui e acabam alcançando lugares que pareciam distantes quando tudo começou.
A trajetória dos irmãos Selton Mello e Danton Mello pertence ao segundo grupo.
Nascidos em Passos, no Sul de Minas Gerais, separados por pouco mais de dois anos, eles começaram a trabalhar ainda crianças e construíram carreiras próprias que acompanham diferentes fases da televisão, do teatro e do cinema brasileiros.
Por isso, Selton e Danton são os personagens do episódio 2 de “Veio Aqui de Minas”, quadro do Sou Mais Minas Gerais dedicado a contar as histórias de mineiros que levaram seu talento para além das divisas do estado.
E, neste caso, a ligação com Minas começa literalmente no nascimento.
Dois irmãos nascidos em Passos
Selton Figueiredo Melo nasceu em Passos em 30 de dezembro de 1972. A biografia da Memória Globo registra que ele é filho de Dalton Natal de Melo e Selva Aretuza Figueiredo Melo. Pouco depois de seu nascimento, a família se mudou para São Paulo, onde o pai trabalhava.
O irmão mais novo, Danton Figueiredo Mello, nasceu também em Passos, em 29 de maio de 1975. Em entrevista, Danton recordou que os dois nasceram na cidade mineira, embora tenham sido criados durante parte da infância em São Paulo.
Hoje, o próprio município de Passos reconhece Selton e Danton entre seus filhos ilustres, destacando os irmãos na área de cinema e televisão.
A permanência física na cidade natal foi curta, mas as raízes mineiras continuariam acompanhando a família.
O caminho para a televisão começou cedo
Antes mesmo de completar dez anos, Selton já demonstrava interesse pelo meio artístico.
Segundo a Memória Globo, ele participou de programas de calouros e começou a fazer comerciais ainda no início dos anos 1980. O primeiro trabalho em novela veio em Dona Santa, exibida pela Bandeirantes em 1981. Curiosamente, foi nessa produção que seu sobrenome artístico ganhou o segundo “l”: “Melo” apareceu grafado como “Mello” nos créditos e o jovem ator decidiu manter a forma.
Depois vieram outros trabalhos até que, em 1984, Selton entrou para a Globo em Corpo a Corpo.
A oportunidade seria decisiva não apenas para ele.
Com a carreira do filho mais velho avançando, a família se transferiu para o Rio de Janeiro. Danton recordou que a mudança ocorreu justamente após o convite para Selton participar da novela.
Foi nessa nova fase que o irmão caçula também ganhou espaço.
Danton estreia em “A Gata Comeu”
Danton começou ainda criança fazendo comerciais, mas sua estreia de destaque na dramaturgia veio aos dez anos.
Em 1985, ele interpretou Cuca, filho de Fábio, personagem de Nuno Leal Maia, em A Gata Comeu. A produção marcou oficialmente sua estreia na Globo.
O ator nunca mais se afastaria por muito tempo das telas.
Em 1989, apareceu como Peto, o filho mais novo de Perpétua, personagem de Joana Fomm, em Tieta, uma das novelas mais lembradas da televisão brasileira.
Mas um papel especial ainda estava por vir.
Héricles e o início de “Malhação”
Em 1995, a Globo lançou uma produção voltada principalmente para o público jovem. Chamava-se Malhação.
O protagonista daquela primeira temporada era Héricles Barreto, interpretado por Danton Mello.
Na trama, Héricles era um jovem do interior que chegava ao Rio de Janeiro para estudar e trabalhar, tornando-se um dos personagens centrais do novo programa.
O próprio ator reconheceria posteriormente a importância daquela experiência, dizendo que o personagem marcou sua vida e que a produção acabou alcançando toda uma geração.
Nas décadas seguintes, Danton participaria de numerosas produções para televisão e cinema, entre elas Hilda Furacão, Cabocla, Caminho das Índias, Como Aproveitar o Fim do Mundo e filmes como Vai que Dá Certo.
E existe outra parte da carreira do ator que muita gente talvez conheça sem sequer saber.
A voz de Danton também chegou a Hollywood
Além de atuar, Danton construiu experiência como dublador.
Entre os personagens aos quais emprestou sua voz está Jack Dawson, interpretado por Leonardo DiCaprio em Titanic. O ator também realizou trabalhos de dublagem relacionados a produções como Os Goonies e Indiana Jones e a Última Cruzada.
Enquanto Danton desenvolvia uma carreira fortemente ligada à televisão, Selton começava a construir uma relação cada vez mais intensa com o cinema.
Selton e personagens que entraram para a cultura popular
Depois de uma longa passagem pelas novelas, Selton ampliou sua presença no audiovisual brasileiro.
Na televisão, esteve em produções como Pedra sobre Pedra, Tropicaliente, A Próxima Vítima, A Indomada e Força de um Desejo.
Mas foi especialmente no cinema que sua trajetória passaria a ganhar uma dimensão diferente.
Em O Auto da Compadecida, Selton interpretou Chicó, ao lado de Matheus Nachtergaele como João Grilo. O personagem se tornaria um dos papéis mais associados ao ator. Depois vieram produções como Lisbela e o Prisioneiro, O Cheiro do Ralo, Meu Nome Não É Johnny e várias outras.
Selton também decidiu atravessar para o outro lado das câmeras.
De ator a cineasta
Como diretor de longas-metragens, Selton ganhou destaque especialmente com O Palhaço, lançado em 2011.
Além de dirigir, ele protagonizou o filme.
A Academia Brasileira de Cinema registra que O Palhaço conquistou 11 prêmios da Academia Brasileira de Cinema, além de ter recebido premiações em dezenas de festivais nacionais e internacionais. A produção foi escolhida para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro referente a 2013.
O filme ainda proporcionou um encontro profissional entre os irmãos: Danton fez uma participação especial em O Palhaço, dirigido e estrelado por Selton.
Mas a história dos dois trabalhando juntos é mais antiga.
Irmãos na vida — e algumas vezes também em cena
Apesar de ambos começarem muito jovens, Selton e Danton seguiram caminhos profissionais bastante independentes.
Eles participaram juntos do Grupo Escolacho, de Chico Anysio, em 1988, e estiveram no teatro em Romeu e Julieta, no Tablado, em 1991. Mais tarde veio a participação de Danton em O Palhaço.
Em 2021, porém, aconteceu uma reunião especialmente simbólica.
Danton entrou para a quinta temporada de Sessão de Terapia, dirigida e protagonizada por Selton. Segundo o Gshow, aquela foi a primeira vez em que os dois interpretaram irmãos também diante das câmeras.
Em entrevista ao UOL, Danton contou que as comparações entre os dois nunca se transformaram em rivalidade. Ao contrário: segundo ele, a união sempre permaneceu, ainda que tenham desenvolvido estilos e carreiras diferentes.
Um mineiro em um filme vencedor do Oscar
Décadas depois do menino que começou na televisão, Selton Mello chegaria a uma das produções brasileiras de maior repercussão internacional da história recente.
Em Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, Selton interpretou Rubens Paiva, ao lado de Fernanda Torres, que viveu Eunice Paiva.
O longa, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, recebeu três indicações ao Oscar de 2025: Melhor Filme, Melhor Atriz para Fernanda Torres e Melhor Filme Internacional.
Na cerimônia realizada em 2 de março de 2025, Ainda Estou Aqui venceu como Melhor Filme Internacional, tornando-se o primeiro longa brasileiro a conquistar o Oscar na categoria.
A participação no filme ainda rendeu a Selton outro reconhecimento importante no Brasil.
No Prêmio Grande Otelo de 2025, ele venceu a categoria de Melhor Ator de Longa-Metragem pela interpretação de Rubens Paiva.
Do interior de Minas para uma produção vencedora do maior prêmio do cinema mundial, era mais um capítulo de uma trajetória iniciada ainda na infância.
Danton também atravessa mais de quatro décadas de carreira
A trajetória do irmão mais novo também atingiu uma marca rara.
Em 2025, A Gata Comeu completou quatro décadas, o que fez Danton celebrar também 40 anos de carreira na televisão. Ele tinha apenas dez anos quando assumiu o papel de Cuca.
Ao longo desse período, o ator alternou novelas, séries, humor, cinema, teatro, apresentação e dublagem.
São carreiras diferentes, mas construídas a partir de um começo muito parecido: dois meninos mineiros diante das câmeras.
Passos permanece na história dos irmãos
Selton e Danton viveram pouco tempo em Passos antes da mudança da família, mas a cidade continua ocupando um lugar importante na narrativa sobre suas origens.
Em 2024, por exemplo, Selton retornou a Passos para apresentar sua autobiografia “Eu me Lembro”, lançada no período em que comemorava quatro décadas de carreira. A visita foi registrada pelo jornalismo regional da EPTV.
O município, por sua vez, mantém os dois entre as personalidades locais de destaque.
É uma conexão que ajuda a mostrar como cidades do interior também fazem parte da história do audiovisual brasileiro.
Dois caminhos, a mesma raiz mineira
Selton virou ator, diretor e produtor e alcançou algumas das maiores premiações do cinema brasileiro.
Danton construiu uma trajetória sólida entre televisão, cinema, teatro e dublagem, acompanhando diferentes gerações de espectadores.
Eles não escolheram exatamente o mesmo caminho — e talvez seja justamente isso que torne a história dos irmãos tão interessante.
O ponto de partida, porém, é o mesmo.
Passos, Minas Gerais.
Foi ali que nasceram os dois meninos que, poucos anos depois, começariam a aparecer diante das câmeras e passariam mais de quatro décadas contando histórias para milhões de brasileiros.
Selton e Danton Mello mostram que Minas Gerais não está presente apenas nos cenários do cinema nacional.
Minas também está em quem faz o cinema e a televisão acontecerem.
E por isso os irmãos de Passos são os protagonistas do episódio 2 de “Veio Aqui de Minas”.
Continue acompanhando o Sou Mais Minas Gerais em soumaisminasgerais.com.br e nas redes sociais. No próximo episódio, uma nova história de Minas ganha destaque.




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